Há 40 anos, a Lamborghini estreava o primeiro Super SUV
Em 1986, a Lamborghini revelou, no Salão Automóvel de Bruxelas, o LM002, um veículo destinado a redefinir o próprio conceito de todo-o-terreno de alta performance. Equipado com o V12 Quattrovalvole do Countach, e pneus Pirelli Scorpion BK especialmente desenvolvidos para o efeito, e concebido para enfrentar areia, pedras e acentuadas pendentes, o LM002 era capaz de superar os 200 km/h, e foi fabricado até 1992, tendo sido produzidas apenas 300 unidades, mais uma com volante à direita, agora em exposição no Museu Lamborghini, em Sant'Agata Bolognese. As origens do LM002 remontam aos projetos experimentais Cheetah e LM001, desenvolvidos entre o final da década de 1970 e o início da de 1980. E é hoje, considerado como a base do Lamborghini Urus.

Desvendado em 1986 no Salão Automóvel de Bruxelas e produzido até 1992, o Lamborghini LM002 foi o primeiro verdadeiro Super SUV do mundo, combinando a performance de um superdesportivo com a capacidade de todo-o-terreno.
Um dos destaques do LM002 era o seu sistema de propulsão, diretamente derivado do lendário Countach Quattrovalvole. O motor V12 a 60 graus de 5167 cc, equipado com quatro válvulas por cilindro, debitava cerca de 450 cv, e alcançava uma velocidade máxima de 210 km/h, mesmo com os seus 2700kg. Inicialmente equipado com seis carburadores Weber, o motor evoluiu, mais tarde, para uma versão com injeção eletrónica de combustível, introduzida em 1989, e homologada para o mercado dos EUA.
O sistema de transmissão contava com uma caixa manual ZF de cinco velocidades com redutoras, e com tração total inserível pelo condutor, o que permitia ao LM002 enfrentar pendentes de até 120% - por cada 100 metros percorridos na horizontal, há uma subida de 120 metros na vertical, o que corresponde a cerca de 50° de inclinação.
O LM002 não era apenas potente, mas também resistente. O seu chassis tubular em aço reforçado era capaz de suportar forças de até oito vezes a aceleração da gravidade, enquanto que o sistema de suspensão totalmente independente, com triângulos sobrepostos, proporcionava um generoso curso das rodas, com 130 mm em compressão, e 110 mm em extensão. O veículo também estava apto a enfrentar cursos de água de até 82 cm de profundidade sem necessitar de preparação especial.
Adicionalmente, os pneus Pirelli Scorpion BK, especificamente desenvolvidos para o veículo, tornaram-se famosos pelas suas distintivas "orelhas" nos flancos, especialmente desenhadas para permitir que o LM002 flutuasse sobre as dunas do deserto, mantendo a precisão direcional.

Mas, antes de chegar ao LM002 definitivo, a Lamborghini passou por várias experiências, começando pelo Cheetah e prosseguindo com o LM001. Houve ainda alguns projetos posteriores, designados LM003 e LM004, que nunca chegaram a bom porto.
A entrada da Lamborghini no mundo dos veículos de todo-o-terreno de altas prestações teve início no Salão Automóvel de Genebra de 1977. O fabricante de Sant’Agata Bolognese revelou o Cheetah, um protótipo de tração integral que marcou uma mudança radical, tanto estilística como tecnológica, face aos modelos desportivos que a empresa havia produzido até então.
Desenvolvido em colaboração com a empresa norte-americana Mobility Technology International (MTI), o projeto foi originalmente concebido para ir ao encontro de requisitos militares, com a ambição de atrair o interesse tanto das forças armadas dos EUA, como dos mercados do Médio Oriente.
No seu coração encontrava-se um motor V8 de 5,9 litros da Chrysler, situado na zona central traseira, capaz de disponibilizar 183 cv às 4000 rpm, e um binário de 362 Nm às 2500 rpm. O propulsor era combinado com uma transmissão automática Chrysler A727 de três velocidades, e tração integral permanente.
A configuração da suspensão contava, na frente, com duplos triângulos, molas helicoidais e uma barra estabilizadora, ao passo que a traseira adotava uma arquitetura similar, melhorada com uma barra de torsão ajustável. O sistema de travões utilizava discos dianteiros ventilados, os mesmos que os do Lamborghini Countach da época.
O Cheetah era capaz de alcançar uma velocidade máxima de 167 km/h em estrada, e de aproximadamente 140 km/h sobre areia. Com 2042 kg, era capaz de acelerar dos 0 aos 100 km/h em 9 segundos.
Embora a produção nunca tenha ido além de um único protótipo, o Cheetah tornou-se numa plataforma experimental crucial para a Lamborghini .

O LM001 ( Lamborghini Militare 1) marcou o segundo capítulo crucial na evolução dos veículos de todo-o-terreno da Lamborghini , representando a transição da natureza experimental do Cheetah para uma visão mais ambiciosa e estruturada em termos de engenharia.
Apresentado no Salão Automóvel de Genebra de 1981, o LM001 foi o primeiro projeto concebido para atrair não só os entusiastas civis, como os mercados governamentais e militares.
Ao contrário do Cheetah, o LM001 adotava uma carroçaria fechada de quatro portas com linhas angulosas, concebida para facilitar a possível integração de proteção blindada. A inovação que definiu o projeto foi a adoção do lendário motor V12 do Countach da Lamborghini : um propulsor de 4,8 litros, que debitava 332 cv às 6000 rpm, embora o primeiro protótipo, tenha sido equipado, inicialmente, com um V8 de 5,9 litros derivado da AMC.
O veículo estava equipado com tração integral permanente, combinada com uma caixa automática Chrysler A-727 de três velocidades, com uma repartição do binário fortemente orientada para o eixo traseiro. Medindo 4790 mm de comprimento, e 2000 mm de largura, o LM001 oferecia uma impressionante altura ao solo de 425 mm na sua secção central. Apesar dos seus 2100 a 2400 kg, o veículo era capaz de alcançar os 180 km/h, e de acelerar de 0 a 100 km/h em cerca de 12 segundos.
Porém, os testes no deserto cedo revelaram uma importante limitação estrutural: a configuração de motor traseiro. Sob forte aceleração, e em subidas pronunciadas, o eixo dianteiro tornava-se excessivamente leve e afetava negativamente a precisão e estabilidade da direção.
Os desafios encontrados em termos de repartição do peso, da dinâmica do veículo, e da refrigeração do motor, acabaram por levar os engenheiros da Lamborghini a repensar por completo a arquitetura. Tal levou diretamente ao desenvolvimento do LMA ( Lamborghini Militare Anteriore), em que o motor foi colocado na frente, estabelecendo as fundações para o produto final LM002.
O LMA representou muito mais do que um simples reposicionamento da unidade motriz. Combinava soluções de engenharia derivadas da competição com uma grande capacidade em todo-o-terreno extremo. O V12 de 4,8 litros derivado do Countach, que debitava 332 cv, manteve-se, ao passo que a anterior transmissão automática da Chrysler foi substituída por uma mais robusta caixa de velocidades manual ZF de cinco relações, equipada com “redutoras”. Ao contrário dos sistemas de tração integral permanente dos protótipos anteriores, o LMA também permitia ao condutor desconectar o eixo dianteiro, e operar o veículo em modo de tração traseira.
Apresentado no Salão Automóvel de Genebra de 1982, o LMA surgiu como um verdadeiro laboratório de engenharia sobre rodas. O veículo cresceu até quase 4,9 metros de comprimento, e um peso total de aproximadamente 2600 kg, o que refletia a sua arquitetura significativamente evoluída.
Os testes foram levados ao extremo nos desertos da Arábia Saudita, onde o veículo provou ser capaz de subir pendentes de até 120%, e de alcançar os 190 km/h. Estes resultados confirmaram a validade da nova configuração técnica, transformando o LMA na base definitiva sobre a qual seria desenvolvido, e lançado em 1986, o lendário LM002.

Paralelamente a esta via de desenvolvimento, a Lamborghini também explorou soluções técnicas alternativas. O LM003 constituiu o único capítulo do programa original " Lamborghini Militare" dedicado à experimentação com motores Diesel. Desenvolvido em 1983, o protótipo foi concebido para avaliar a viabilidade de um todo-o-terreno de alta performance que oferecesse maior eficiência e facilidade de utilização, por comparação com os potentes, mas gastadores, motores V12 a gasolina.
Para este projeto, o LM003 foi equipado com um motor de cinco cilindros turbodiesel que debitava 150 cv, mas os testes rapidamente demonstraram que a potência disponível era insuficiente para um veículo que rondava as três toneladas de peso, e o projeto nunca passou da fase de protótipo.
Em 1985, a Lamborghini apresentou o LM004, um protótipo experimental ainda mais extremo, equipado com um motor de origem marítima. O projeto representou uma tentativa de ampliar ainda mais os limites técnicos da gama LM, explorando soluções de motorização inspiradas na competição náutica.
No coração do LM004 encontrava-se o Lamborghini L804, a versão de competição do motor V12 da marca, desenvolvido para lanchas offshore. Debitando mais de 420 cv, e um binário de 589 Nm logo às 2000 rpm, o enorme motor de sete litros requeria um chassis alongado, por comparação com o do LM002 que posteriormente entraria em produção.
Apesar do seu extraordinário potencial em termos de performance, o projeto LM004 acabou por ser abandonado. O peso excessivo do motor marítimo, e as preocupações com a sua fiabilidade, tornavam-no menos eficaz do que o V12 de 5,2 litros que acabou por ser selecionado para o LM002 de produção.
"O LM002 representa uma das raízes da visão contemporânea da Lamborghini…Muito à frente do seu tempo, antecipou o conceito do Super SUV, e inspirou toda a nossa filosofia de produto, que hoje podem ser encontrados na família Urus." - Stephan Winkelmann
Apesar do seu design exterior anguloso, e das suas imponentes dimensões, o habitáculo do LM002 representava o topo de luxo artesanal da sua época. O interior contava com revestimentos em pele de primeira qualidade, e com aplicações em madeira nobre, ao passo que o equipamento incluía ar condicionado, vidros escurecidos em azul, um sistema de som de alta-fidelidade integrado no tejadilho, e, a pedido, até um televisor. O LM002 oferecia espaço para quatro ocupantes no habitáculo, enquanto que a ampla zona de carga traseira enfatizava a versatilidade do veículo.
Em 1987, o LM002 tinha um preço de aproximadamente 169 milhões de liras italianas, refletindo tanto a sua exclusividade tecnológica, como a ausência de quaisquer concorrentes diretos. A produção terminou em 1992, depois de terem sido construídos, no total, 301 unidades, incluindo os veículos destinados ao mercado norte-americano, onde o LM002 chegou oficialmente a partir de 1989.
O LM/American representou a evolução tecnológica do LM002. Fabricado numa série limitada de apenas 60 unidades, esta versão foi especificamente reformulada para cumprir com as estritas normas de emissões dos EUA e da Califórnia.
Em 1989, o lendário piloto de ralis, e diretor de relações públicas da Lamborghini, Sandro Munari, participou na competição de resistência norte-americana "One Lap of America", uma prova exigente, que abarcava aproximadamente 10 000 milhas através de vários estados dos EUA. O veículo utilizado na corrida foi um LM002 com especificação de produção em série, idêntico à versão homologada para o mercado americano.

A evolução mais significativa introduzida no LM/American foi o sistema de alimentação de combustível do motor V12 de 5167 cc. Para cumprir as normas de emissões cada dia mais restritivas, que os carburadores Weber tradicionais já não podiam satisfazer, a Lamborghini desenvolveu um avançado sistema de injeção eletrónica multiponto. Nesta configuração, o V12 com injeção de combustível oferecia uma potência certificada de 420 cv. Devido às exigências em termos de espaço dos componentes da nova injeção de combustível, e às normas de segurança, a capacidade do depósito de combustível foi reduzida de 280 litros, nas versões com carburador, para 180 litros.
O LM002 inaugurou um caminho que não existia naquela época, tornando-se no verdadeiro precursor dos modernos SUV de luxo de alta performance. Décadas mais tarde, este legado foi reinterpretado com a revelação do protótipo Urus, em 2012, um SUV arrojado e musculado, que abertamente fazia referência ao LM002, ao mesmo tempo que traduzia o ADN da Lamborghini num formato moderno e versátil.
Com a estreia do Urus de produção, em 2017, a Lamborghini redefiniu, uma vez mais, o segmento ao criar o Super SUV moderno. Graças a valores de performance de referência, incluindo uma velocidade máxima de 305 km/h, que fez dele o SUV mais rápido do mundo por alturas do seu lançamento, o Urus confirmou a legitimidade da Lamborghini numa categoria que o LM002 havia, corajosamente, explorado décadas antes.







