Comércio de usados acelera no online
A pandemia de Covid-19 está a afetar toda a economia e o comércio de automóveis usados não é, claro está, exceção. A presença online ganha, por isso, importância ainda maior, como explica o presidente da Associação Portuguesa do Comércio Automóvel (APDCA), Vítor Gouveia. “Desde o começo desta pandemia que a APDCA está a incentivar os seus associados a usarem os diferentes canais de divulgação online, alargando o espetro de potenciais clientes. A própria entrega das viaturas comercializadas pode ser feita via transporte para o local pré-acordado com o cliente final”, refere.

Guia do Automóvel (GA): Que impacto está o mercado de usados a sofrer da pandemia de Covid-19?
Vítor Gouveia (VG): Seguindo as recomendações da DGS, a APDCA aconselhou, desde a primeira hora, os seus associados e demais operadores do setor a encerrarem o seu atendimento direto ao público. Acatando as recomendações e, posteriormente, as normas emanadas com a declaração do estado de emergência, os empresários do setor do comércio de automóveis usados fecharam as instalações. Sendo algo que não estava programado, o mercado como era expectável ressentiu-se e apresentou uma redução muito expressiva na atividade. Esta quebra evidente e esmagadora foi especialmente sentida ao nível das vendas, mas também se refletiu na capacidade de resposta das empresas às solicitações e na motivação de compra dos clientes. Esta última foi especialmente afetada, o que até será compreensível, já que a saúde, o bem-estar e as preocupações quanto ao futuro tomaram conta da “agenda” das famílias, adiando, até ver, a decisão quanto à compra de um automóvel, por exemplo.
GA: Se nos novos a ausência de contacto é um obstáculo ao negócio, nos usados é ainda maior?
VG: Neste setor, algumas empresas ainda estão muito vocacionadas para a venda presencial ou em parque. Obviamente que, para estes casos, o fecho de portas é um obstáculo de peso e os pedidos de contactos acabam por ser muito menores, mas, felizmente, para muitas outras os pedidos de contactos e informações ainda vão existindo porque já há muito que tinham apostado no comércio online e conseguem “chegar” aos clientes pela via digital. Desde o começo desta pandemia que a APDCA está a incentivar os seus associados a usarem os diferentes canais de divulgação online, alargando o espetro de potenciais clientes. A própria entrega das viaturas comercializadas pode ser feita via transporte para o local pré-acordado com o cliente final.
GA: Nos negócios que ainda existem, a logística de transporte de veículos (aqui sobretudo os oriundos de grandes frotas e os usados importados) está a funcionar?
VG: No mercado nacional ainda estamos a conseguir operacionalizar a logística de entregas e levantamentos, por exemplo, mas em termos internacionais está tudo parado, até porque o fecho de muitas fronteiras e as dificuldades de movimentação em algumas regiões acabam por levar a este fenómeno. Agora, apesar de ainda ser possível, obviamente que o fecho das instalações dos diferentes operadores e parceiros do setor acaba por prejudicar o fluxo logístico e atrasar os processos, mas ninguém estava (ou poderia estar) preparado para uma situação extrema como esta. O facto de ainda conseguirmos ir mantendo alguma atividade é a prova da capacidade de adaptação e resiliência dos empresários do setor.
GA: Que medidas defende a APDCA para apoiar os profissionais e empresas de comércio de veículos usados?
VG: Desde o começo da pandemia e, em particular, após as medidas de isolamento social e posterior declaração do Estado de Emergência, a APDCA está em contacto direto com o Governo, em especial o Ministério da Economia na figura do senhor secretário de Estado do Comércio, Serviços e Defesa do Consumidor. Enviámos atempadamente um conjunto alargado de sugestões para apoiar o setor do Comércio de Automóveis Usados, entre os quais destacamos: Suspensão do IUC das viaturas que se encontram em stock até 31 de dezembro de 2020 (sendo reposto na venda da viatura); suspensão do pagamento por conta, visto ser um encargo de tesouraria para uma previsão de lucros que dificilmente devem acontecer e aliviava a mesma; criar uma linha de financiamento pós-pandemia para apoio ao arranque das empresas (sem juros); acesso ao lay-off para os sócios-gerentes, situação que, aliás, é característica da maioria das empresas do nosso sector, já que muitas delas são compostas apenas pelos sócios gerentes e/ou com poucos colaboradores; Suspensão dos pagamentos à Segurança Social até à retoma da economia, com uma reposição parcelada dos valores em dívida; suspensão do pagamento do IRS até à previsível retoma da economia e posterior reposição parcelada dos valores em causa; em relação ao IRC, APDCA solicitou que se faça uma divisão do pagamento em quatro parcelas, para que as tesourarias fiquem menos congestionadas, porque haverá um período sem receitas para fazer face a todos os encargos e compromissos assumidos pelas empresas. Além disso, na opinião da APDCA, o pagamento do IVA do primeiro e segundo trimestres deveria ser faseado entre períodos de tributação, que é trimestral, e que, uma vez apurado, este podia ser pago nos três meses seguintes após o prazo de pagamento sem cobrança de juros ou coimas. Resta-nos ainda acrescentar que este esforço da APDCA tem tido resultados positivos e que se traduziram em ações concretas. Nomeadamente, na questão das inspeções automóveis aos usados importados para atribuição de matrícula e nas inspeções aos automóveis em stock que tivessem a mesma caducada numa data anterior à declaração do Estado de Emergência. Ambas as solicitações foram feitas com o apoio da DEKRA e obtiveram uma resposta positiva, tendo sido publicados despachos e emitidas circulares aos Centros de Inspeções a fim da realização das mesmas.
"O mercado como era expectável ressentiu-se e apresentou uma redução muito expressiva na atividade", refere Vítor Gouveia.
GA: Já consegue prever o impacto da pandemia neste negócio em Portugal em 2020?
VG: Como em quase tudo durante esta pandemia é muito difícil, para não dizer impossível, avançar com valores realistas ou previsões acertadas. O que temos a certeza é que as empresas que operam no sector estão a fazer um esforço colossal para manterem todos os seus colaboradores e continuarem a cumprir com todas as suas obrigações, de forma a conseguirem voltar à atividade assim que lhes for permitido. No entanto, uma paragem mais prolongada no tempo pode corresponder a que o presente ano esteja “perdido” para as mesmas. No entender da APDCA, só conseguiremos contabilizar este impacto, com algum rigor, no primeiro trimestre de 2021, até lá vai ser uma verdadeira corrida contra o tempo para se tentar salvar o maior número possível de empresas, postos de trabalho e, em última análise, a economia nacional. E, para isso, estejam certos de que podem contar com o esforço e a dedicação de todos na APDCA.
GA: Quando pode o mercado voltar a níveis pré-Covid-19?
VG: Mais uma vez avançar com datas é praticamente impossível e os exercícios de futurologia não adiantam muito num cenário completamente novo e em que as previsões podem ser um tiro no escuro. O que sabemos é que será crucial, quando retomarmos a nossa atividade, o Governo apelar, através de campanhas, ao consumo interno, para a economia conseguir erguer-se de forma célere e sustentada. Se esse apoio não se concretizar ou não se traduzir em efeitos práticos quase imediatos, a retoma do mercado será muito mais lenta e “dolorosa” para todos. Temos esperança e acreditamos na resiliência de todos os intervenientes do setor para voltar à “normalidade” o mais depressa que for possível, mas vamos precisar de apoios concretos e não apenas de palavras de incentivo.
GA: Acredita que o modelo de transporte urbano pode abrandar a tendência que verificava de transferência para o transporte público em detrimento do individual e, aí, a predisposição para o carro beneficiar o vosso negócio?
VG: Na APDCA acreditamos que o transporte individual em viatura própria não é um luxo, mas sim uma questão de liberdade, seja na gestão do tempo ou da mobilidade. Além disso, pensamos que em relação aos relacionamentos interpessoais e às deslocações a população, de uma forma geral, irá dar ainda mais valor aos ambientes “controlados” e nada como a sua própria viatura para puder ter essa tranquilidade, para si e para a sua família. Ainda assim, achamos que é possível e até salutar uma convivência com todas as formas de mobilidade, seja a particular ou os meios de transportes públicos. A mudança de paradigma para uma maior sustentabilidade também se deverá acentuar porque, como estamos a ver, os desequilíbrios naturais podem levar a crises muito acentuadas. Na prática, seja com a adoção de automóveis mais sustentáveis (híbridos, híbridos plug-in, elétricos ou com outra forma de energia alternativa como o GPL ou o GNV) ou tradicionais (gasolina ou gasóleo), não nos parece que o futuro do automóvel como meio de transporte particular esteja comprometido, antes pelo contrário. E isto sem pôr em causa a evidente utilidade de uma rede de transportes públicos fiável e confiável.







