China vai proibir puxadores ocultos. O maior recall da sua história explica porquê
A partir de 2027, a China vai deixar de permitir puxadores retráteis (ocultos) sem um mecanismo mecânico convencional. Entretanto, nove fabricantes estão a realizar um recall que envolve cerca de 4,3 milhões de veículos, o maior da história automóvel do país.

A questão não está no facto de o puxador ficar embutido na carroçaria, mas na possibilidade de não ser possível abrir facilmente a porta numa situação de emergência, sobretudo quando o sistema elétrico do veículo deixa de funcionar.
O que está em causa?
Os puxadores retráteis são acionados normalmente através de sistemas eletrónicos. Podem surgir quando o veículo é desbloqueado ou quando o utilizador toca numa determinada zona do puxador. A solução tornou-se popular sobretudo nos elétricos, contribuindo para um design mais limpo e, em alguns casos, para melhorar a aerodinâmica.
O problema surge quando ocorre um acidente grave e o automóvel perde alimentação elétrica. Nessa situação, os ocupantes ou os socorristas podem ter dificuldade em encontrar ou utilizar o mecanismo mecânico de emergência.
Foi precisamente esta possibilidade que levou as autoridades chinesas a apertar as regras. Em fevereiro, Pequim anunciou que os novos modelos terão de contar com mecanismos mecânicos de abertura, tanto no exterior como no interior, claramente identificáveis e funcionais mesmo em caso de acidente. As novas regras entram em vigor para novos modelos a 1 de janeiro de 2027, enquanto os modelos já aprovados terão até 2029 para cumprir os requisitos.
A decisão ganhou ainda mais relevância depois de a China anunciar o maior recall automóvel da sua história. No total, cerca de 4,3 milhões de veículos de nove fabricantes serão alvo de medidas corretivas devido a preocupações relacionadas com os mecanismos de abertura das portas.
A Tesla representa a maior fatia, com aproximadamente 2,98 milhões de veículos, incluindo Model 3, Model Y, Model S e Model X produzidos na China ou importados para aquele mercado.
Também estão envolvidos fabricantes chineses como a Xiaomi, com cerca de 390 mil veículos, a Leapmotor, com aproximadamente 371 mil, e a XPeng, com cerca de 264 mil unidades.
Apesar da dimensão do recall, nem todos os veículos terão de receber um novo puxador. Em muitos casos, as soluções passam por atualizações de software e novas indicações junto dos mecanismos de emergência, tornando mais fácil identificar e utilizar a abertura manual.
No caso da Tesla , por exemplo, a intervenção inclui uma atualização de software que pode fazer baixar automaticamente os vidros depois de determinadas colisões, além de melhorar a identificação dos mecanismos de emergência.
Uma preocupação que ultrapassa a China
A questão não é exclusiva do mercado chinês. A utilização de puxadores eletrónicos e retráteis também é comum na Europa e nos Estados Unidos, onde as autoridades começaram igualmente a analisar os riscos associados à abertura das portas em caso de falha elétrica.
Na Europa, porém, não existe atualmente um recall semelhante da Tesla . O regulador automóvel neerlandês RDW, responsável pela supervisão da segurança dos veículos Tesla no mercado europeu, confirmou que está a acompanhar a situação, mas sublinhou que os puxadores embutidos ou retráteis não são, por si só, considerados um problema. A preocupação está na possibilidade de os veículos poderem ser abertos intuitivamente quando os sistemas elétricos falham.
A discussão já chegou também aos trabalhos internacionais de regulamentação automóvel e ao Euro NCAP, precisamente devido a casos em que ocupantes ou equipas de emergência tiveram dificuldades em abrir veículos depois de acidentes ou incêndios.
China aumenta fiscalização sobre os automóveis
O caso dos puxadores surge numa altura em que a China está a reforçar significativamente a fiscalização da indústria automóvel. As autoridades chinesas lançaram uma campanha de um ano para melhorar a qualidade e segurança dos veículos.
Os fabricantes terão de realizar inspeções mais abrangentes aos seus produtos, incluindo qualidade, fiabilidade, durabilidade e novas tecnologias. A campanha inclui ainda sistemas avançados de assistência à condução, software, cibersegurança e mecanismos de resposta em situações de emergência. As empresas terão de apresentar às autoridades os resultados das suas avaliações e avançar voluntariamente com recalls sempre que sejam identificados defeitos.
O caso dos puxadores retráteis acaba, assim, por representar algo maior do que uma simples mudança de design. À medida que os automóveis se tornam cada vez mais dependentes de software e sistemas elétricos, as autoridades estão a exigir que funções básicas, como abrir uma porta depois de um acidente, continuem a funcionar mesmo quando toda a tecnologia falha.
E é precisamente essa a questão que está agora a obrigar milhões de veículos a passar por uma correção e a indústria automóvel chinesa a repensar uma das soluções de design que mais se popularizou nos últimos anos.






