A Invasão da Ucrânia vai ter impacto nos preços dos carros novos e usados.
Quem ainda não ouviu falar da falta de carros novos, ou da subida de preços dos usados que se verificou em 2021? Quem ainda não ouviu falar da crise dos semicondutores ou da falta de chips? Antes da pandemia, a indústria automóvel habituou-se a uma cadeia de distribuição sem grandes interrupções, aproveitando o melhor que a globalização tinha para oferecer.

Desde o final da segunda guerra mundial, e mais ainda depois da queda do muro de Berlim, o mundo habituava-se a estar cada vez mais interligado e isso era óptimo. Eram os benefícios da globalização.
A produção era deslocalizada para os locais mais vantajosos, avaliando-se constantemente e sem restrições, as economias de clusterização, estivessem elas relacionadas com o mercado de capitais, com o mercado de trabalho ou com vantagens na logística e economias de escala.
Depois veio a pandemia.
E com a pandemia vieram os isolamentos, as restrições à circulação de pessoas e produtos e os encerramentos de unidades de produção, o que fez com que a indústria automóvel tivesse que lidar com os primeiros desafios num mundo em que os efeitos positivos da globalização não estavam efectivamente garantidos.
Mas há outras coisas que também não estão garantidas. E, neste caso, a invasão da Ucrânia pela Rússia, as consequentes sanções à Rússia e as dificuldades de circulação também vão impor consequências ao sector.
O que é que vai ser diferente?
Muitas das consequências são previsíveis e afetam a economia de uma forma global, produzindo efeitos nefastos em vários setores e não só no automóvel.
Em primeiro lugar, temos as consequências que estão relacionadas com a subida dos preços das matérias-primas e com as restrições na circulação de mercadorias. O seu efeito vai verificar-se no preço de algumas das commodities mais importantes especificamente das que têm origem na Rússia e na Ucrânia. É o caso, por exemplo, do petróleo, do gás natural, do trigo, etc que vão ver o seu preço de mercado disparar no curto prazo.
Os dois países são exportadores destes produtos para o ocidente e, quer porque foram impostas sanções à Rússia, quer porque se espera que esta possa retaliar impondo restrições de fornecimento, os seus preços vão estar pressionados para subir, fazendo subir também, de acordo com a incorporação em cada sector, os custos de produção de uma forma global.
Por outro lado, há materiais especificos que são importantes para o sector automóvel e que vão ver também os seus preços subirem. A Rússia é, por exemplo, um dos maiores fornecedores de alumínio, material que é usado nos chassis e em componentes de quase todos os carros.
Relativamente às restrições na circulação de mercadorias, quer os portos ucrânianos do mar negro, quer todo o espaço aéreo russo estão limitados, e isso vai provocar uma escalada dos preços de transporte de mercadorias para e provenientes da Ásia. A saída da Rússia do sistema internacional de pagamentos vai fazer implodir também as transacções financeiras internacionais com as empresas russas e tudo isto , no seu conjunto, vai conduzir a uma subida dos custos de produção.
Mas há ainda outras consequências. Por um lado, as sanções vão afetar as vendas de várias marcas para a Rússia, sendo expectável que várias marcas suspendam as suas exportações para aquele mercado. Ontem, por exemplo, a Jaguar Land Rover anunciou que vai suspender as vendas para a Rússia e o grupo Stellantis já veio dizer que há operações que vão ser afectadas pelo contexto regional. Hoje, no dia 2, a Mercedes veio confirmar também que vai suspender a exportaçaõ de carros ligeiros e comerciais para o mercado russo. De uma forma geral, estas suspensões vão tornar-se generalizadas, afectando as restantes marcas.
Por outro lado, várias fábricas europeias recebem componentes que são produzidos na Ucrânia e podem suspender algumas produções em breve.
De acordo com a Bloomberg, existem 49 fábricas na Ucrânia e na Rússia que estão relacionadas com a indústria automóvel Alemã. A Volkswagen, por exemplo, já anunciou que vai parar algumas linhas de produção na fábrica de Wolfsburg, uma das maiores unidades de produção do mundo, as quais podem afectar a produção do Volkswagen ID.4, enquanto que a BMW AG já referiu, em comunicado, que são esperadas interrupções de produção devido à escassez de componentes.
Em Fevereiro, pela primeira vez nos últimos 12 meses, assistiu-se a alguma correção no preço dos usados e esperava-se que os preços continuassem a corrigir ao longo dos próximos meses, à medida que as várias marcas voltassem a recuperar produção e a repor stock ao longo das cadeias de distribuição, no fundo até que os parques dos concessionários indicassem haver carros suficientes para responder à procura.
Assim, o que se espera na realidade é que continue a haver alguma escassez de produto, pelo menos em algumas marcas, com os carros a chegarem a conta-gotas às concessões. Se os prazos de entrega se mantiverem nos níveis atuais, não deverá haver condições para a descida de preços, pelo menos num prazo imediato.






