“Nada será igual daqui para a frente”
José Couto, presidente da AFIA, sobre o pós-pandemia “Nada será igual daqui para a frente”. Numa frase, é assim que o presidente da Associação de Fabricantes para a Indústria Automóvel (AFIA), José Couto, resume o que prevê para o setor nacional da produção de componentes automóveis no pós-pandemia de Covid-19. “As entidades europeias que se dedicam ao estudo da atividade económica têm manifestado uma opinião convergente: primeiro que nada será igual daqui para a frente, porque os consumidores deverão alterar o seu comportamento e também haverá um processo longo de retoma da confiança; segundo, haverá uma aceleração da introdução de novos produtos, em linha com as obrigações e opções ambientais; terceiro que a indústria atravessará um período de grandes dificuldades até ao primeiro trimestre de 2021”, explica José Couto. Para já, a quase totalidade das fábricas nacionais parou.

Guia do Automóvel (GA): Qual está a ser o impacto da necessidade de isolamento social devido à pandemia de Covid-19 nas empresa associadas da AFIA?
José Couto (JC): Parece que não há dúvidas relativamente a esta medida como forma de travar o processo de evolução do vírus. O isolamento social é uma medida imprescindível para combater a disseminação do vírus e permitir que o serviço social do país possa responder, com dificuldade, às exigências da doença, em termos de cuidados médicos e de equipamentos, e desta forma travar a mortalidade. A fórmula usada por outros países mostrou que o isolamento faz parte da solução, que evitou e abrandou uma subida súbita que criaria congestionamentos inultrapassáveis nos serviços de assistência médica e traria uma enorme mortalidade. Desta forma o achatamento da curva de progressão terá um beneficio claro. O isolamento social também obriga ao encerramento prolongado de grande parte da atividade económica com as consequências que conhecemos. Prevalece a questão sanitária e a saúde da comunidade como é evidente, mas o tempo de paragem da atividade produtiva vai ter consequências graves e, em muitos casos, destruir o que demorou muitos anos e gerações a construir. É transversal a todo o tecido económico, todavia, falando na indústria de componentes para veículos automóveis: o cenário é de catástrofe. As empresas trabalharam até onde foi possível. Enquanto tiveram encomendas foi possível manter a atividade produtiva, assegurando as condições de higiene e segurança e executando os planos de contingência interna. Com a paragem na Europa – maior cliente dos fabricantes portugueses – de todas as fábricas de produção automóvel e dos seus fornecedores de primeira e segunda linha, as empresas começaram a encerrar.
GA: Até onde pode chegar a quebra de encomendas no curto prazo?
JC: Os produtores de componentes nacionais têm como clientes fornecedores de primeira linha e construtores de automóveis que com o encerramento rompem a cadeia de abastecimento e de produção e põem em causa todo o processo. Ora isto terá um efeito dramático nesta Indústria, para as empresas e para os trabalhadores, porque, pelos nossos cálculos, neste início do mês de abril a queda de encomendas chegará a 90%. Tendo em conta o contributo destas empresas para a economia nacional, pelo seu perfil exportador – representam 16% das exportações nacionais de bens transacionáveis –, pela capacidade de criação de valor e porque 8% dos empregos da indústria transformadora são sua responsabilidade, logo a interrupção da produção é um abalo sério para a economia nacional. Este é um problema de toda a Europa, onde a Indústria Automóvel, o Cluster, tem um peso relevante, que emprega cerca de 14 milhões de trabalhadores e onde se espera uma enorme destruição de empregos. Se as expectativas para o ano de 2020 já não eram famosas em termos de crescimento, agora são catastróficas, porque se espera uma queda, no melhor cenário, de 30% na produção de veículos, logo isso significaria uma perda de faturação das empresas de componentes portuguesas de 3,5 mil milhões de euros. A grandeza dos números é ilustrativa da vaga destruidora e dos efeitos que terá nas empresas, da inevitabilidade de promoverem processos de adaptação e de reorganização a esta nova realidade.
" Não temos qualquer dúvida que haverá empresas que não conseguirão ultrapassar esta tempestade", afirma José Couto, presidente da AFIA.
GA: Em relação à totalidade de 2020, já é possível fazer alguma espécie de previsão do impacto desta crise na produção e faturação na indústria de componentes para automóveis em Portugal?
JC: A AFIA através das consultas que tem realizado junto dos seus associados e através da CLEPA [Associação Europeia de Fornecedores para o Automóvel], tem monitorizado a evolução da produção nacional, e verificado a evolução no espaço europeu. O que é possível desde já garantir é que a produção paralisa quase totalmente este mês de abril. Dizemos quase totalmente porque a atividade iniciou na China e na Coreia, as OEM [fabricantes] iniciaram a produção e retomaram as encomendas e isto pode significar, mais ou menos, 10% da atividade normal. Foi registado uma queda de produção, por via das encomendas de 50% no mês de março e agora as empresas reportam-nos uma queda para o mês e abril de cerca de 90%, havendo que salientar que muitas das empresas por não trabalharem apenas para o automóvel poderem ter ainda ocupação residual. Contudo, o que temos como referência neste momento é uma expectativa de queda significativa do consumo que pode levar a uma diminuição de produção por volta de 30% no ano de 2020.
GA: O ano que vem poderá ser já melhor?
JC: As entidades europeias que se dedicam ao estudo da atividade económica têm manifestado uma opinião convergente: primeiro que nada será igual daqui para a frente, porque os consumidores deverão alterar o seu comportamento e também haverá um processo longo de retoma da confiança; segundo, haverá uma aceleração da introdução de novos produtos, em linha com as obrigações e opções ambientais; terceiro que a indústria atravessará um período de grandes dificuldades até ao primeiro trimestre de 2021. Neste caldo de adversidades e oportunidades teremos de estar atentos para nos mantermos como parceiros e capazes e incrementar a produção, as exportações e recuperar o emprego.







