Rally de Portugal: Uma Cronologia entre a glória, o sangue e o absurdo
A edição de 2026 do Vodafone Rally de Portugal, recém-concluída com a vitória de Thierry Neuville, acrescentou um capítulo bizarro a uma história que já conta com quase 60 anos. Do "milagre" no nevoeiro ao surrealismo de um reboque em plena prova, recordamos a linha do tempo que faz desta a prova mais carismática do mundo.

O pó baixou finalmente nas serras do Norte, selando a 59.ª edição do Vodafone Rally de Portugal. No entanto, para os milhares de aficionados que povoaram as encostas de Fafe e Amarante, o rali é muito mais do que a folha de tempos de 2026. É a compilação viva de memórias que remontam a 1967, ano em que o então Rally TAP deu os primeiros passos sob a batuta de César Torres.
1980: O milagre de Arganil
A década de 80 começou com uma demonstração de superioridade técnica que ainda hoje é estudada. Sob um nevoeiro tão espesso que os próprios batedores da organização mal conseguiam caminhar, Walter Röhrl e o seu navegador Christian Geistdörfer fizeram o impossível. Confiando cegamente nas notas, o piloto alemão "voou" sobre o abismo na Serra do Açor, vencendo o troço de Arganil com uma vantagem de quase cinco minutos sobre a concorrência. Foi o momento em que o rali transcendeu o desporto para se tornar arte.
1980-1986: A loucura dos Grupo B e o "Caso dos Dedos"
Nesta era, a paixão portuguesa cruzou a linha da sanidade. Os espectadores formavam corredores humanos que apenas se abriam escassos milímetros antes da passagem dos carros. O episódio mais macabro ocorreu durante uma assistência à equipa oficial da Peugeot: ao abrirem a grelha do 205 Turbo 16 para investigar um sobreaquecimento, os mecânicos encontraram dois dedos humanos alojados na entrada de ar. Um espectador, ao tentar tocar no carro em movimento, viu a mão ser ceifada.
Este delírio coletivo, onde era comum encontrar marcas de mãos ensanguentadas e pedaços de roupa nas carroçarias, teve o seu fim trágico na Lagoa Azul (Sintra), em 1986, quando o despiste de Joaquim Santos vitimou mortalmente três pessoas, forçando o fim imediato dos "monstros" do Grupo B.
Após anos de glória, o rali bateu no fundo em 2001. Condições climatéricas catastróficas, lama intransitável e falhas logísticas levaram à perda do estatuto mundial. Seguiu-se uma "travessia do deserto" no Algarve até ao regresso triunfal ao Norte em 2015. A organização conseguiu o impensável: devolver a prova ao seu habitat natural, o Norte, mas com um protocolo de segurança rigoroso que transformou o histórico Salto de Fafe num exemplo global de organização.
2026: O triunfo de Neuville e o "reboque intruso"
A edição deste ano provou que o imprevisto continua à espreita. Num dos momentos mais surreais da era moderna, um veículo de reboque civil entrou inadvertidamente num troço já fechado, surgindo na frente de um dos carros da categoria Rally1. A perícia do piloto evitou uma colisão frontal por escassos metros, num incidente que rapidamente se tornou viral e forçou a interrupção da classificativa.
No plano desportivo, Thierry Neuville (Hyundai) soube capitalizar os infortúnios de Sébastien Ogier (Toyota), que perdeu a liderança devido a um furo na penúltima classificativa, para garantir uma vitória estratégica. Ao nível nacional, a resiliência de Armindo Araújo, novamente o melhor português, provou que a chama do rali em Portugal continua a arder com a mesma intensidade de há décadas.

Das cinzas dos Grupo B à precisão híbrida de 2026, o Rally de Portugal reafirma-se como uma prova onde o asfalto e a terra contam histórias que desafiam a lógica. É um evento que aprendeu com os erros do passado, mas que mantém intacta a sua capacidade de surpreender o mundo, seja pela genialidade dos seus pilotos, seja pelo insólito dos seus imprevistos.






