“Bruxelas tomou uma decisão emocional”: CEO Carlos Tavares comemora marco em Mangualde mas revela receios
O Centro de Produção Stellantis de Mangualde inaugurou a produção de veículos totalmente elétricos na presença do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, e de Carlos Tavares, CEO da Stellantis. Em mesa redonda com os jornalistas, o diretor português revela compromissos, ambições mas também receios.

A Fábrica de Mangualde
Com um investimento de 119 milhões de euros, parte proveniente do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), a fábrica de Mangualde tornou-se a primeira em Portugal a produzir veículos ligeiros de passageiros e comerciais 100% elétricos em grande escala. A unidade passará a fabricar oito modelos elétricos, incluindo o Citroën ë-Berlingo, Peugeot E-Partner, Fiat e-Doblò e Opel Combo-e, destinados tanto ao mercado interno quanto à exportação.
O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, na companhia do Ministro da Economia, Pedro Reis, e da Secretária de Estado de Saúde, Ana Margarida Povo, visitaram as instalações onde operam 900 colaboradores (15% mulheres) e de onde saíram 84.296 veículos em 2023, o que representa 26.7% dos automóveis produzidos em Portugal no ano. A unidade fabril de Mangualde está no TOP 3 das melhores fábricas Stellanis ao nível mundial.
O início da produção de veículos elétricos a bateria estava anunciada para o início de 2025, mas acabou por se antecipar. Neste momento, já se procede à montagem de veículos elétricos em Mangualde, iniciando-se em outubro a produção em série. Para que isto fosse possível, a unidade de Mangualde teve transformações significativas na sua área industrial, como a criação de uma nova linha de montagem de baterias que promoveu a total modernização de uma área com mais de 800 m2. Esta nova zona permitiu a criação de 63 novos empregos.
A fábrica de Mangualde já tem em pleno funcionamento o parque fotovoltaico com 6.370 painéis fotovoltaicos, que têm a capacidade para satisfazer 32% das necessidades anuais de energia da Fábrica. Este projeto faz parte do plano estratégico "Dare Forward 2030” da Stellantis, que visa reduzir pela metade as emissões de CO2 até 2030 e alcançar a neutralidade carbónica até 2038.
Stellantis entrega 719 veículos elétricos ao Serviço Nacional de Saúde
Em paralelo, a Stellantis venceu um mega-concurso público do Ministério da Saúde, fornecendo 719 veículos elétricos para o Serviço Nacional de Saúde (SNS). Este contrato, no valor de quase 21 milhões de Euros, inclui modelos Peugeot E-Rifter e Citroën ë-Berlingo , que serão utilizados em unidades de Cuidados Continuados de Apoio Domiciliário em todo o território continental.
Carlos Tavares atribuiu palavras de alegria e orgulho ao início da produção eletrificada: “Como podem ver, a Stellantis está profundamente comprometida com Portugal, na produção industrial, na criação de empregos, na geração de valor e disponibilizando um excelente portefólio de veículos. Não será demasiado arrojado afirmar que, ao fornecer veículos ambientalmente sustentáveis para utilização por parte de Unidades de Cuidados Continuados de Saúde de todo o país, a Stellantis está também a olhar pela saúde de todas as gerações em Portugal.”
O fornecimento de veículos elétricos carece de uma necessidade urgente de estabilidade nos preços de energia e de um maior apoio governamental para a transição para veículos elétricos: “Temos que ter menos volatilidade do preço da energia e preço da energia mais competitivo. Já percebemos que temos que produzir a nossa própria energia e estamos empenhados em que em 2025 todas as nossas fábricas no mundo produzam pelo menos 50% da energia que consomem.” O CEO português abordou também a questão dos subsídios para veículos elétricos, enfatizando a importância do apoio governamental para tornar esses veículos acessíveis à classe média. “Se houver um pedido ao Estado é que ajude as classes médias deste país a comprarem veículos elétricos. Já se viu pela Europa fora que as ajudas andam entre 5 a 7 mil euros por automóvel, isso faz um buraco enorme nos orçamentos de Estado, e logo que essas ajudas param a procura desaparece.”
Além disso, Carlos Tavares sublinhou a importância das infraestruturas de carregamento para o desenvolvimento dos veículos elétricos. “Queremos as infraestruturas que favoreçam o desenvolvimento dos veículos elétricos e há dois tipos de ajuda: Uma é diretamente ao consumidor final e outra é infraestruturas de carregamento nas vias. Se as infraestruturas de carregamento forem visíveis, vão permitir que os carros tenham baterias mais pequenas, com uma autonomia mais pequena porque cada um de nós vai estar tranquilizado pela visibilidade dos postos de carregamento e, portanto, já não está com aquela ansiedade de precisar de 600 km de autonomia. Se a bateria for mais pequena o carro é mais barato, a acessibilidade para as classes médias é mais favorecida e já não se têm que dar tantos subsídios que penalizam o orçamento de Estado.”
Carlos Tavares sugeriu que o Estado português utilize o Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) para acelerar o desenvolvimento da rede de carregamento. “Se houvesse uma recomendação ao Estado português, eu diria para utilizarem o PRR para acelerar o desenvolvimento da rede de carregamento. Podem utilizar o dinheiro que tiverem para ajudarem e incentivarem as classes médias a comprarem carros elétricos a um nível mais acessível.” “Se houvesse uma recomendação ao Estado português eu diria para utilizarem o PRR para acelerar o desenvolvimento da rede de carregamento. Podem utilizar o dinheiro que tiverem para ajudarem e incentivarem as classes médias a comprarem carros elétricos a um nível mais acessível.”
Preocupado com o impacto ambiental a longo prazo, o CEO destacou a importância de criar condições que incentivem a compra de veículos elétricos. “É uma questão que preocupa os meus netos essencialmente, por uma razão simples: Se não criarmos as condições para que o consumidor compre naturalmente um veículo elétrico estamos a ver uma hesitação de que se não há incentivos hoje, talvez haja amanhã, talvez espere pelos chineses ou pelo momento em que os construtores vão fazer uma maior autonomia a um preço mais baixo. Essa espera vai-se traduzir na não resolução do aquecimento global e, portanto, o problema são os meus netos.”
O Diretor Executivo da Stellantis comentou também sobre a capacidade da Stellantis de continuar a fabricar motores térmicos, caso necessário, mas questionou quem arcaria com os custos dos investimentos já realizados em tecnologias elétricas. “Nós, se fosse necessário continuarmos a fabricar motores térmicos até um certo ponto, sabemos fazer, mas se eu não utilizar os investimentos indómitos que já fiz em fábricas, plataformas, modelos elétricos, a quem é que vou apresentar a conta? A Bruxelas? Aqui está o investimento que eu fiz para respeitar o vosso regulamento e que vocês agora estão a hesitar. Aqui é que está toda aquela mecânica difícil que foi muito emocional, que foi a consequência da batota de uma marca alemã muito conhecida em que a reação de Bruxelas foi emocional e não foi estratégica. Portanto, precipitaram-se naquela via emocional e não conseguiram refletir estrategicamente.”
Referindo-se às recentes tensões comerciais com a China, Tavares alertou sobre as consequências de aplicar proteções aduaneiras. “Está mais do que óbvio que foi um erro e que aplicar as proteções aduaneiras é uma tentativa de corrigir o erro que não é perfeita, que não é estratégica e que vai ter outras consequências que vão ser as retaliações. Se não deixarmos os chineses virem com os carros deles, será que vamos exportar o nosso vinho do Porto? Será que vamos exportar a nossa carne de porco ou o que for?”
Finalizando, Carlos Tavares expressou uma preocupação maior sobre a estabilidade global e a liderança política. “Estou preocupado com o mundo ocidental. Estou muitíssimo preocupado com a Europa que está num vácuo de liderança política que é um grande risco de uma terceira Guerra Mundial.”
As declarações de Carlos Tavares destacam a necessidade de uma abordagem estratégica e colaborativa para enfrentar os desafios da transição energética e garantir um futuro sustentável para as próximas gerações.






