Villiers-Saint-Frédéric: visitámos o coração dos furgões da Renault, que celebra 60 anos
À primeira vista, Villiers-Saint-Frédéric parece apenas mais uma discreta localidade francesa. Mas, há 60 anos, é aqui que se escreve a história dos veículos comerciais ligeiros da Renault. E acreditem: se pensam que um furgão é ‘só uma caixa com rodas’, estão completamente enganados.

Foi em Villiers-Saint-Frédéric que, há 60 anos, a Renault decidiu concentrar toda a sua experiência no desenvolvimento de veículos comerciais ligeiros. Em 1965, já tinham percebido que este segmento merecia atenção própria. Hoje, o centro ocupa 15 hectares, conta com cerca de mil colaboradores e continua a ser o verdadeiro ‘cérebro’ por trás de modelos icónicos como o Trafic, o Master e o Kangoo.
Furgões testados até à exaustão… ou ao sucesso!
Durante a visita ao Centro, tivemos oportunidade de ver alguns dos testes pelos quais os furgões da Renault passam e, apesar de já sabermos que existem testes, ficamos impressionados. Há bancos de ensaio que simulam 20 anos de utilização em apenas 18 meses. Estamos a falar de portas que são abertas e fechadas 900 mil vezes, bancos que “sentem” 450 mil entradas e saídas, quilometragens equivalentes a 120 mil km por ano. É obra.
E não é só resistência. A acústica também é levada a sério. Porque, sejamos honestos, há motoristas que passam 10 horas por dia dentro de uma carrinha. O silêncio, as vibrações no volante ou no banco, até o barulho da ventilação, tudo é medido, ajustado e afinado para que não se chegue ao fim do dia com os ouvidos a chiar.
Além disso, Villiers-Saint-Frédéric possui seis áreas-chave de especialização na investigação e desenvolvimento de veículos comerciais ligeiros: instalações para ensaios, bancos de teste, oficinas e acústica, protótipos, estudo de motores, avaliações competitivas de qualidade, estudos de engenharia e a oficina phygital.
O centro dispõe de cerca de 80 engenheiros e técnicos que operam mais de 30 equipamentos de teste, realizando mais de 80 tipos de ensaios com recurso a 2.000 sensores e sistemas de medição. A atividade decorre 24 horas por dia, sete dias por semana, ao longo de todo o ano. Estes ensaios complementam as simulações digitais, assegurando que cada veículo é robusto, fiável e capaz de responder às condições mais exigentes dos clientes empresariais.
Uma das novidades mais interessantes é a Oficina Phygital, criada para acelerar o desenvolvimento dos veículos comerciais ligeiros. Esta permite que equipas de diferentes áreas trabalhem juntas numa única plataforma, juntando tarefas que antes eram feitas separadamente. Com óculos de realidade virtual, conseguem ver o veículo em 3D e até simular a experiência do cliente de forma imersiva. O mais curioso é que é possível interagir com a maquete virtual e com partes físicas ao mesmo tempo, testando soluções diferentes e comparando resultados.
Villiers tem outra particularidade: foi pioneiro nos veículos comerciais elétricos. Em 1985 já andavam a experimentar soluções elétricas no Renault Express e no Trafic, muito antes de ser um assunto. Depois veio o Kangoo elétrico, que, em 2011, foi o primeiro furgão 100% elétrico a ganhar o título de International Van of the Year.
Hoje, a aposta é clara: Master, Trafic e Kangoo estão disponíveis em versões nativas elétricas, e vêm aí modelos como o novo Estafette E-Tech com tecnologia de 800 V, capaz de carregar dos 15% aos 80% em menos de 20 minutos.
Durante a visita, conversamos com Jean-François Vial, Program Director da Renault , que explicou os bastidores da inovação: cerca de 70% do trabalho da equipa está ligado a regulações e adaptações constantes. Com os elétricos, o desafio é ainda maior. “Muitas vezes são alterações que o cliente nem percebe, mas são essenciais. Por isso, perguntamos sempre: ‘o que realmente precisa?”, explicou.
A transição elétrica, garante Jean-François, é inevitável. “Quando os clientes experimentam o novo Master , ficam surpreendidos: silêncio, eficiência, energia. O desafio é mudar mentalidades. É mais caro? Sim. É preciso carregar? Também. Mas, é como o telemóvel ou a televisão, uma vez adotado, não há volta atrás.” Ainda assim, há limites técnicos: “Podemos pôr uma bateria enorme para percorrer distâncias gigantes, mas o veículo fica tão pesado que é preciso nova carta de condução. É um equilíbrio permanente.”, refletiu.
Inovar lado a lado com o cliente
O centro também trabalha lado a lado com clientes e transformadores. Desde soluções básicas “Converted by Renault ” até oficinas Qstomize, que adaptam veículos no final da linha de montagem, a flexibilidade é enorme. E há mais de 300 carroçarias aprovadas, que permitem personalizações quase ilimitadas.
É também desta filosofia que nasceram ideias como a abertura lateral de 1,45 m no Kangoo Van, a famosa “open sesame”, que valeu ao modelo o prémio de Van of the Year em 2022.
Viagem no tempo ao volante
No final do evento, tivemos ainda a oportunidade de conduzir alguns dos clássicos que ajudaram a escrever esta história: Juvaquattre, Estafette Furgon, Estafette Gendarmerie, Estafette Microbus, R4 F4, Trafic VU Plateau P1400, Master Fourgon e H5.
Foi como entrar numa cápsula do tempo, sentindo de perto a evolução da indústria: do ruído metálico e direção rígida à suavidade e silêncio dos modelos atuais.
Villiers-Saint-Frédéric reúne 60 anos de experiência no desenvolvimento de veículos comerciais ligeiros da Renault . O centro combina tradição e inovação, com especialização em elétrica, personalização e testes de fiabilidade, refletindo a evolução contínua da indústria automóvel.








