COP 28. Já não há dúvidas: O hidrogénio é mesmo o futuro
A vigésima oitava edição da conferência das partes para as alterações climáticas levada a cabo pelas Nações Unidas teve início no dia 30 novembro e prolongou-se até dia 13 de Dezembro. Que efeitos pode ter nas futuras escolhas da indústria automóvel?

Com as temperaturas do globo a subirem e com fenómenos climáticos cada vez mais extremados, poderiam apontar-se dois objectivos principais para a COP 28. Por um lado, fazer um ponto de situação relativamente às metas que resultaram dos acordos de Paris e, por outro lado, conseguir-se que as várias nações do mundo acordassem um conjunto de medidas que assegurem a redução de emissões de gases de estufa, designadamente conseguir-se uma comunicação clara, inequívoca, incluindo metas concretas, incentivos específicos e o financiamento dessas mesmas medidas.
No entanto, esta conferência foi uma conferência atípica, atribulada e essa atipicidade não pode causar grande admiração, uma vez que o Dubai era o anfitrião escolhido para a COP28 e, além disso, o seu presidente, o Sultão Ahmed Al-Jaber, era também o CEO da companhia nacional de petróleo do Abu Dhabi.
Se isso se impunha como um desafio, todos os resultados positivos que pudessem ser alcançados ganhariam também uma conotação diferente, um vínculo adicional. A atribulação foi evidente quando o horário previsto para uma declaração conjunta de acordo foi ultrapassado por não ter havido consenso no que respeita ao apontar o dedo aos combustíveis fósseis, como os grandes responsáveis pelo aquecimento global.
Houve até um draft da comunicação a ser efectuada, mas vários líderes apressaram-se a alertar para a insuficiência da declaração. Foi o caso de alguns líderes europeus e alguns dos líderes representantes dos membros da OASIS, uma organização de países insulares de baixa altitude, os quais fizeram saber que aquela primeira proposta de texto ficava muito aquém das expectativas criadas e que se recusavam a assinar a sua própria certidão de óbito.
'Não vamos assinar a nossa certidão de óbito' (Toeolesulusulu Schustter, ministro Samoano dos recursos naturais, em representação das OASIS)
Por fim, o impasse foi ultrapassado e a COP 28 acabou por fazer um comunicado inédito e consensual, aprovado por quase 200 países.
Os principais pontos, ideias-chave, reconhecimentos e prioridades do comunicado da COP28 são os seguintes:
Agora é o princípio do fim dos combustíveis fósseis;
Reconhecimento da legitimidade da ciência que indica que os gases com efeitos de estufa devem sofrer uma redução de 43% até 2030( com base no valor index de 2019) por forma a que a temperatura não aumente mais do que o estipulado, 1,5ºC;
Reconhecimento de que a actividade humana foi a principal responsável pela subida da temperatura no globo;
Reconhecimento da importância da defesa de prioridades fundamentais como a luta contra a fome e a protecção de reservas de água;
Reconhecimento de que o financiamento e a transferência de tecnologias são fundamentais na luta global pela protecção climática;
Triplicar a capacidade de produção de energia renovável até 2030;
Duplicar a eficiência no uso da energia até 2030;
Terminar todo o tipo de medidas que subsidiem os combustíveis fósseis;
Melhorar a resiliência de países menos desenvolvidos ao impacto das alterações climáticas, suportado num fundo de ajuda criado para o efeito;
Que consequências podem ter as conclusões da COP28 para a indústria automóvel?
A principal consideração com impacto na indústria automóvel é, obviamente, o compromisso com o fim dos combustíveis fósseis. Isso deita por terra expectativas que pudessem existir a respeito de um adiamento do fim da produção dos motores de combustão interna.
A segunda consideração significativa é a referência inequívoca a novas tecnologias de baixas emissões, tecnologias de remoção de carbono e uma referência explícita ao hidrogénio. É, assim, bastante provável, assistirmos a uma aceleração do investimento no hidrogénio por parte da indústria automóvel, com benefícios evidentes para construtores que estão mais avançados nessas investigações, como a Toyota e a Hyundai.
Há ainda uma terceira referência importante. O comunicado da COP 28 reconhece a importância que podem ter os combustíveis de transição, como os sintéticos, neste momento de transição energética. No entanto, depreende-se pelo comunicado que os sintéticos nunca serão uma solução de longo prazo, uma vez que há ainda bastantes limitações no que respeita a tecnologias de remoção de carbono.
Assim, o hidrogénio parece sair da COP28 com um papel futuro bastante reforçado na indústria. Nós pensamos que isso vai ser determinante e guiar as escolhas estratégicas em vários construtores, que irão, dessa forma, intensificar o investimento nesta solução. Da mesma forma, haverá um desdobramento de esforços no sentido de garantir uma rede de abastecimento capaz e pervasiva, garantindo o equilibrio.
Aguardemos agora para ver como os construtores lidam com estas recomendações.





