A Mitsubishi pode juntar-se à fusão Honda - Nissan. Quem ganha mais e quem perde?
O aparecimento de novos construtores chineses à escala global tem deixado um impacto profundo na estrutura da indústria automóvel. As marcas japonesas preparam-se para um passo inédito.

O surgimento de novos construtores chineses à escala global tem deixado um impacto profundo na estrutura da indústria automóvel.
Por um lado, os Chineses parecem controlar não só as fontes de matérias primas para a produção, como lograram estabelecer vantagens competitivas relacionadas com a escala de produção. Além disso - quem diria - colocaram-se na vanguarda de tecnologias utilizadas nos EVs, bem como em sistemas de apoio à condução, melhorando especialmente a qualidade de construção.
Isso tem permitido aos construtores chineses ganharem quota de mercado em todo o mundo, mas também no mercado interno, onde marcas europeias, japoneses ou americanas têm tido cada vez mais dificuldade em estabelecer-se, perdendo quota de mercado nos últimos anos.
Essas dificuldades pressionam construtores a implementarem alianças estratégicas ou a fundirem-se. No fundo é o que está a passar-se agora com estes construtores nipónicos, Honda, Nissan e Mitsubishi.
"Temos de desenvolver capacidades para lutar contra os fabricantes chineses até 2030, caso contrário seremos superados." (CEO da Honda, Toshihiro Mibe)
A Honda e a Nissan iniciaram recentemente conversações sobre uma possível fusão, com o objetivo de concluir as negociações em junho de 2025. Por outro lado, a Mitsubishi já manifestou o interesse em participar do processo de fusão e promete tomar uma posição até ao final de janeiro de 2025.
A fusão Honda - Nissan - Mitsubishi em números
Se concretizada, a fusão seria o maior negócio dos últimos anos, dando origem ao terceiro maior grupo construtor do mundo, com uma capitalização de cerca de 60 mil milhões de dólares. A Honda , o segundo maior construtor japonês, após a Toyota, produz aproximadamente 4 milhões de veículos, enquanto a Nissan , que ocupa a terceira posição no ranking de construtores japoneses, fabrica mais de 3 milhões de unidades. A Mitsubishi , o menor fabricante dos três, produz cerca de 1 milhão de veículos.
Assim, com cerca de 8 milhões de veículos produzidos, o novo grupo seria apenas superado pela Toyota e pela Volkswagen em termos de volume de produção.
Qual a situação atual de cada uma das marcas individualmente?
Atualmente, as três marcas enfrentam desafios significativos, embora a Honda se destaque como a mais sólida entre elas.
A Honda tem crescido e melhorou a rentabilidade operacional em 2024, impulsionada principalmente pela forte performance da sua divisão de motociclos. No entanto, dois indicadores levantam preocupações.
Em primeiro lugar, os incentivos oferecidos pela marca para impulsionar as vendas de veículos eléctricos nos Estados Unidos variam entre 7 e 10 mil dólares, um valor superior ao que era esperado. Este valor é difícil de inverter, uma vez que o mercado está pressionado para uma contínua baixa de preços, com cada marca a não querer perder quota de mercado.
Outro indicador preocupante refere-se à queda nas vendas da Honda no mercado chinês, que é o maior do mundo, com mais de 25 milhões de veículos vendidos (fonte: statista.com), o dobro do que se vende em toda a Europa e 10 milhões a mais do que nos Estados Unidos.
A Honda possui uma quota de mercado significativa na China, fazendo parte de um grupo restrito de quatro marcas que venderam mais de 1 milhão de carros no país até 2023. Contudo, a Honda já havia perdido 13% do seu volume de vendas em 2023 e sofreu uma nova queda, de quase 20%, em 2024, uma quebra mais acentuada do que a marca previa. Para reverter essa tendência no curto prazo, será necessária uma mudança significativa na abordagem da marca em relação a este mercado.
Apesar desses desafios, a Honda possui soluções híbridas e de células de combustível. Além disso, apresenta indicadores financeiros favoráveis e disponibilidades financeiras acumuladas que lhe permitem avaliar o processo de fusão sem desespero.
A Nissan , já não goza do mesmo à-vontade. Tem vivido dificuldades que se tornaram mais notórias a partir de 2018 - relembramos que, desde 2018, a Nissan perdeu 80% da sua capitalização de mercado -, mas que continuam evidentes e profundas nos dias de hoje. Para evitar o colapso, a companhia precisa de recursos financeiros que lhe permitam levar a cabo a reestruturação que programou e que passa por reduzir 20% a sua produção, cortando 9000 postos de trabalho. Por outro lado, a Nissan traz para a mesa as plataformas e a experiência com SUVs de grande dimensão, como o Nissan Armada ou o Infinity QX80.
A Mitsubishi é a companhia mais pequena deste grupo, mas pode trazer enorme valor ao grupo. O segredo está na tecnologia dos híbridos plug-in que é dominada pela Mitsubishi e que as outras duas marcas necessitam.
Os PHEV parecem ter recuperado o ‘hype’, depois de terem estado sob enorme escrutínio em 2020 e 2021. De certa forma, parecem ter beneficiado do desenvolvimento de tecnologias usadas nas baterias elétricas e também do desenvolvimento verificado nas infraestruturas de carregamento.
É o mercado na China que transmite o sinal de revitalização mais robusto, onde o segmento dos PHEV tem mostrado um dinamismo brutal. Na China, os PHEV duplicaram praticamente o número de vendas no segundo trimestre e voltaram a crescer 55% no terceiro trimestre de 2024. Sem dúvida que a Honda beneficiaria muito se pudesse contar com essa tecnologia para fazer frente à BYD, marca líder entre os PHEV.
Mais difícil do que parece
Para além das vantagens relacionadas com a partilha de tecnologia e partilha de investigação e desenvolvimento, que colocaria as três marcas em melhor posição para fazer face à ofensiva chinesa, a fusão impõe imensos desafios.
Desde logo, a Nissan é detida em parte pela Renault - que recentemente vendeu uma parte das ações detidas a um fundo francês - e, pelo seu lado, detém parte da Mitsubishi - que recentemente adquiriu cerca de 10% de ações próprias à Nissan . Vejamos até que ponto cada uma das partes, Nissan e Mitsubishi , são independentes na sua decisão.
Em vários mercados, a Nissan e a Honda estão presentes no mesmo segmento. Ao partilharem tecnologias e soluções, isso pode implicar fazer concessões e, nesse caso, teria de ser a Nissan a abdicar de estar presente.
Por último, quanto caminho vão conseguir atalhar, sabendo-se que as marcas chinesas e a Tesla partem na frente?
Desta forma, é a Honda que parece ganhar mais com a fusão. É a marca que se encontra em melhor situação e que ditará os principais termos do acordo. Ficará com SUVs de grande dimensão para o mercado americano e com a tecnologia PHEV, que lhe permitirá extrair resultados no mercado chinês. Por outro lado, a Nissan ficará com a tecnologia PHEV e com recursos financeiros que são urgentes, enquanto que a Mitsubishi poderá ver alargada a sua linha de produtos equipados com novas soluções de propulsão.





