Carros grandes. Este sonho americano pode ter explicação histórica. Sabes qual é?
Para nós, europeus, todos os carros americanos têm o seu quê de oversized, seja na dimensão da carroçaria, seja na dimensão do motor. No entanto, também nós gostamos de carros cada vez maiores. O que se passou?

Nós costumamos dizer que os americanos gostam de tudo em grande e os automóveis não são uma excepção, quanto maiores melhor.
Para termos uma ideia do quanto os americanos gostam de carros grandes, vamos olhar para os números de vendas por tipo de carroçaria e vemos que não há outro país no mundo com tantas pick-ups e SUVs como os Estados Unidos da América. A cada ano que passa, quase 10 milhões de novos SUV e pick-ups chegam às estradas americanas para se juntarem aos que já lá existem. São milhões e milhões de carros grandes que teimam em dificultar a vida a quem escolhe ter um carro pequeno.
Por exemplo, a Ford F-150, uma pick-up de grandes dimensões da Ford , é um dos veículos mais vendidos do mundo, com praticamente todas as unidades a serem comercializadas nos Estados Unidos.
Mas não foi sempre assim. Até à decada de 60 do século passado, os americanos compravam mais sedans e carrinhas do que pick-ups, numa altura em que os SUV não existiam. O que se passou então?
Podemos dizer que os americanos valorizam determinados factores como a dimensão e o espaço, ou que as marcas gastam milhões de dólares em marketing para os convencer a comprar carrinhas pick-up e SUVs, podemos dizer também que os americanos compram esse tipo de carros porque podem, porque os combustíveis são mais baratos e porque as infraestruturas são as adequadas para albergar um parque gigante de carros de grande dimensão.
Todos esses argumentos são válidos, mas neste caso é capaz de haver também uma razão adicional histórica, uma espécie de um ponto de viragem, a partir do qual os gostos e as opções dos americanos começaram a mudar.
Como sabemos, tradicionalmente, o preço de venda dos combustíveis é mais baixo nos estados Unidos do que na Europa. Isso deve-se ao nível historicamente baixo de impostos que incidem sobre produtos petrolíferos nos estados Unidos, quando comparado com a média da UE. No entanto, durante o primeiro choque petrolífero, no início da década de 70, os Estados Unidos sofreram com a falta de petróleo nos mercados internacionais. Nessa altura, o governo americano estabeleceu um conjunto de regras que obrigavam os fabricantes de automóveis a tomarem medidas e a procurarem soluções mais eficientes que permitissem que os novos carros passassem a consumir menos combustível. Por exemplo, os carros de passageiros que fossem produzidos a partir de 1985, teriam que passar a consumir metade do combustível médio usado como referência em 1975. [1]
Entre outras medidas, o objectivo era reduzir a dependência do País relativamente às importações do petróleo.
No entanto, por serem carros de trabalho, essenciais para as pequenas empresas e para a economia local, as carrinhas pick-up ficaram sujeitas a regras mais relaxadas, não precisando de melhorar tanto a sua eficiência.
Esta abertura na legislação foi então aproveitada pelos fabricantes de carros americanos. Esses fabricantes começaram a propor novas soluções de pick-ups, acrescentaram portas e lugares, acrescentaram equipamento, bancos confortáveis e grande espaço de bagageira. O mercado viu então chegar carros 4x4 de grandes dimensões, com muito espaço e confortáveis, que mantinham a base dos chassis de longarinas das pick-ups.
Juntamente com estas alterações de estratégia, nessa alturaos fabricantes fizeram circular campanhas de marketing gigantescas para venderem estas novas soluções aos americanos, convencendo-os a trocarem os seus sedans e as carrinhas por pick-ups luxuosas e SUVs. Esta estratégia e esta solução saía mais barata e apresentava resultados menos arriscados do que a investigação e desenvolvimento de novos motores, mais pequenos e menos potentes.
Se formos analisar a evolução dos volumes de produção, vemos que há uma subida consistente na produção de SUVs e pick-ups desde finais da década de 70 a par de uma quebra, também ela consistente, na produção de automóveis de passageiros com outros tipos de carroçaria.
Esta parece ter sido, de facto, o ponto de viragem no gosto dos americanos por SUVs e pick-ups: uma crise petrolífera, uma legislação que pensava na redução de dependência e uma solução engenhosa dos fabricantes de carros que investiram milhões de dólares em campanhas de marketing.
Qual a tendência futura para os Estados Unidos?
Os americanos adquiriram então um gosto 'especial' por este tipo de carros. Mas será que haverá uma altura em que vão mudar? Não vai acontecer tão cedo. Pelo menos é o que nos dizem estudos recentes.
Por exemplo, um estudo recente levado a cabo pela Volkswagen junto de uma amostra de compradores norte-americanos indica que 9 em cada 10 americanos esperam usar apenas SUVs para o resto da vida e que as suas escolhas por esse tipo de veículo se deve a questões relacionadas com a segurança, o conforto e o espaço proporcionado por este tipo de veículos.
E na Europa o que aconteceu?
Nós, aqui na Europa, não temos aquela imensidão de estradas e distâncias, nem as infraestruturas americanas, mas gostamos de dizer que os americanos escolhem os carros de acordo com o seu ego.
Para nós, europeus, todos os carros americanos têm o seu quê de oversized, seja na dimensão da carroçaria, seja na dimensão do motor.
Independentemente disso, seremos inocentes se pensarmos que o que aconteceu nos Estados Unidos, não teve nenhuma influência no velho continente e no mundo.
Precisamente, esta tendência para os clientes preferirem carros grandes, do tipo SUV, acentuou-se nos últimos anos, e acabou por se propagar também na Europa, deixando de ser uma exclusividade do mercado norte-americano. De uma forma geral, todas as marcas responderam a essa tendência lançando para o mercado automóveis de maior dimensão, populando vários segmentos com mais modelos tipo SUV, tornando-os cada vez mais práticos e cada vez mais seguros. Cada um desses lançamentos vai, obviamente, moldando o nosso gosto.
Uma consulta rápida na pesquisa do Guia do Automóvel, permite-nos perceber que 46% de todos os modelos listados são SUV ou Crossovers, quase metade da totalidade dos modelos.
Sabemos que há agora uma tendência para movimentos urbanistas condenarem o uso de SUV, ou condenarem o uso de carros grandes de uma forma geral, mas a realidade é que a tendência estará longe de se inverter. Pensamos que, de uma forma geral, a mobilidade urbana será repensada. Os particulares comprarão menos carros que farão menos Kms e terão ciclos maiores. Nunca teremos carros com a dimensão do que os que circulam no continente americano, mas continuaremos a escolher SUVs.
[1] De acordo com o Energy Policy Conservation Act de 1975 (Fonte: https://dieselnet.com/standards/us/fe.php)






